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Lost time!

11 agosto 2010

Olhando inexpressivamente pela janela, ouço novamente os gritos pela justiça. Os brasileiros explodiram. Não aguentam ver mais tanta corrupção. Querem falar, querem fazer a diferença. Fico com pena deles. Tudo isso não vai mudar nada. O mundo é dos espertos, e dos que tem status. Nós, pobres cidadões brasileiros, é como se falassemos em silêncio.
Já cansei de lutar por algo perdido. Espertos aqueles que pisam em alguém para subir, infelizmente não consigo ser assim. Mas já percebi que estamos sozinhos no mundo. Temos que pensar individualmente. Quem pensa demais nos outros sempre acaba no chão.
Eu já fui como eles, já corri atraz de justiça. Tempo perdido!
Deito na minha cama. Coloco o fone do meu iPod no ouvido e ligo uma música da banda The Offspring. Encho a minha boca de fumaça e, solto vagarosamente. Esperando os dias ruins passarem, se passarem...

Dayane Néri Fonseca

A atitude suspeita

06 agosto 2009

­ Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso "em atitude suspeita". É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!­
- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.
- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?
- Suspeita.
- Compreendo. Bom trabalho rapazes. E o que é que ele alega?
- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.
- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações.
- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!
- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitude suspeita.
- Mas eu só estava esperando o ônibus!
- Ele fingia que esta esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.
- Ah! Aposto que não havia nenhuma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?
- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despeitar suspeita.
- E o cara-de-pau ainda se declara inoscente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele alij fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada uma.
- Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.
- Era o meu ônibus, o ônibus para ir pra casa! Sou inocente.
- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?
- E se eu me declarar culpado, o senhos vai me considerar inocente?
- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?
- Fugir como?
- Fugir no ônibus. Quando foi preso.
- Mas eu não tentava fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo sempre.
- Ora meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O senhor estava fingindo que esperava o ônibus, em atitude suspeita, qundo suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir e...
- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.
- Ah, uma confissão!
- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.
- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude suspeita?
- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!
- Delegado...
- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que o público nos respeite se nós também andamos aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...
- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando soltar um acusado que confessou estar em atitude suspeita, é um pouco...
- Um pouco? Um pouco?
- Suspeita­.

Luis Fernando Veressimo

 
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